O
longa-metragem de 116 minutos de duração foi lançado em 1987 é dirigido por
Stanley Kubrick, que após um intervalo de sete anos voltaria a ver um dos seus
filmes nos cinemas. Penúltimo filme da carreira do consagrado diretor, “Nascido
para Matar” é fruto de um olhar singular do Kubrick sobre a polêmica Guerra do
Vietnã.
Nota: 4,5/5
A
trama do filme é dividida em 2 partes por uma elipse temporal. Na primeira
parte, acompanhamos o treinamento dos soldados na Academia de Fuzileiros Navais,
na segunda, segue a atuação do Joker e seus companheiros de pelotão na guerra.
“Nascido
para Matar” é uma crítica social ao que acontece nas guerras. Kubrick se
utiliza do humor negro para fazer essa crítica, ou seja, através do riso, ele
denuncia a condição humana a qual muitas pessoas inocentes e soldados estão
sujeitos em guerras. A ironia também está presente como forma de crítica, nas
cenas e diálogos do filme. O sarcasmo é tão grande, que a segunda parte do
longa, onde as cenas de combate estão presentes, é uma espécie de alivio para
os acontecimentos que presenciamos na primeira parte.
Apesar
de ser um longa do gênero Guerra, “Nascido para Matar” não prioriza muitas batalhas
e explosões. A direção de Stanley Kubrick se empenha no desenvolvimento de
personagens, proporcionando ao espectador conhecer suas personalidades e
acompanhar suas transformações psicológicas durante todo o filme. Uma
característica bem interessante sobre “Nascido para Matar” é a interligação
entre cenas não-sequenciais.
No
campo da atuação, três atores ganham destaque na película: R. Lee Erney como
Sargento Hartman, Vincent D’Onofrio como Gomer Pyle e Matthew Modine como
Joker. Hartman é a caricatura do militar-dura, o Sargento era o responsável
pelo treinamento cruel e sádico dos novos recrutas. A metodologia do Sargento
transformará aqueles soldados em assassinos impiedosos sedentos por uma guerra,
mas nem todos conseguirão suportar a pressão, o que no final resulta em uma tragédia.
Herney por ter sido um Sargento da Marinha que participou da Guerra do Vietnã
na vida real, sabe se utilizar de muitos improvisos para dar mais vida a seu
personagem. Em certas cenas, Herney mal pisca, para demonstrar a forte
personalidade do Hartman na tela. O personagem Joker é considerado por muitos,
o protagonista do filme, pois é através dele que grande parte do enredo é
contado. O personagem interpretado pelo Modine, representa a dualidade humana,
tanto é que ele carrega um símbolo da paz no peito e leva escrito no seu
capacete, a expressão Nascido para Matar
(Born to Kill). A dualidade de Joker também é representado pelas atitudes do
personagem, que mostra uma capacidade de liderança e este se mostra disposto a
ajudar Pyle a ter melhores resultados no treinamento, mas ele cede a ordem de
Cowboy para bater em Pyle na cena da surra. Modine
entrega uma interpretação com vários gestos, cheias de piadas que através do
tom de voz usado pelo personagem, fazem o espectador muitas vezes criar uma
empatia pelo próprio. Também em destaque, temos o Pyle, um cara tranquilo e
inocente, mas que como recruta vai sendo degradado psicologicamente pela
crueldade e dureza do treino, além da hostilidade dos colegas em certo momento
da trama, o personagem do D’Onofrio é surrado pelos “camaradas”. Episódio que
irá contribuir para a transformação total do Pyle em um assassino, uma mudança
que irá terminar em uma calamidade. D’Onofrio tem uma grande atuação recheada
de emoções, e com muitas expressões faciais que vão demonstrando sua
transformação.
Como
é de se esperar de Kubrick, ele trabalha muito bem o belíssimo visual do filme.
Os figurinos, cenários, fotografia e iluminação são alguns dos elementos
utilizados por Kubrick para criar essa experiência visual que é tão
participativa em “Nascido para Matar”.
Os
figurinos e os cenários utilizados em “Nascido para Matar” ambientam bem o
espectador quanto a situação em que os personagens se encontram, o local e o
clima da cena. Kubrick utiliza de diversos planos gerais durante o longa para
apresentar os cenários ao espectador. Os cenários de treinamento e combate são
bem compostos e trabalham em sintonia com os figurinos (em sua maioria,
uniformes) para compor as cenas. Um bom exemplo é a base de Da Nang, onde o
Joker fica instalado no início da segunda parte do filme, que sugere uma certa
tranquilidade e segurança tanto aos personagens quanto ao espectador. A
sensação de tranquilidade em Da Nang é tão grande por parte dos soldados, que
todos são pegos de surpresa no ataque à base.
Algo
bem interessante sobre os cenários, é que eles evoluem durante todo o longa:
Base
de treinamento (local seguro) >>> Ruas de uma cidade do Vietnã (local
desconhecido) >>> Base Da Han (seguro, mas passível de ataque inimigo)
>>> Chegada a Pe Hui (Guerra e perigo se aproximando) >>>
Ambientes urbanos como locais de combate (Vida em perigo, a guerra está ali).
A
iluminação e fotografia trabalham de forma mutua com os cenários e os figurinos
para entregar esse visual que foi citado. A fotografia realça bem o verde dos
uniformes e do campo de treinamento, que com o decorrer do filme fica menos
vivaz. O retrato do que os personagens sentem é passado de um forma muito
importante pela iluminação, principalmente em locais fechados, em que a
iluminação é forte, no sentido de contribuir com as cores daquele cenário,
criando uma perspectiva no ambiente sobre algo que está acontecendo em cena ou
sobre personagens em cena, assistindo a cena da surra que o Pyle toma, se nota
que o azul do ambiente retrata a frieza dos soldados. Já em locais abertos, a
iluminação natural é utilizada na maioria das cenas. Há também em algumas
cenas, um trabalho conjunto entre a iluminação que está sendo usada e
utilização das grandes angulares para causar uma grande profundidade de campo.
Em
“Nascido para Matar”, Kubrick dirige algumas cenas do filme a partir da
perspectiva de um ponto e outras tendo como cenário, o banheiro. Estas 2
concepções excepcionais são características do estilo de direção do Kubrick. A
perspectiva de um ponto utiliza um ponto de vista fixo, geralmente central; a
profundidade de campo é ampla, nada está fora do foco na cena, e transmite uma
sessão de amplitude, como se todos os objetos do cenário extrapolassem as
bordas da tela. Para Kubrick, o banheiro é um retrato da negação do ser humano,
pois de portas fechadas com privacidade, o homem chega mais próximo do seu
estado primitivo. Os interiores dos banheiros de Kubrick refletem o momento em
que o personagem e o filme está.
As
cenas de combate que acontecem na segunda parte do filme mostra a competência
de Kubrick em dirigir cenas, levando realismo a ação através da utilização de
vários travellings que acompanham os soldados em batalha, closes nos soldados e
planos detalhes nas armas que estão sendo empunhadas. Nas mais variadas cenas
do filme, Kubrick usa dos mais diversos planos para compor as cenas: Planos
Conjuntos, Médio, Gerais, Próximo; Além dos Contra Plongee e Câmera Lenta.
A
trilha sonora do filme é composta por apenas 7 músicas, a maioria delas de rock
fazendo referência à juventude interrompida daqueles soldados pela Guerra do
Vietnã. A cena icônica que é composta por um
travelling horizontal, intercala o som da guerra com a música Sunfin’ Bird,
retratando o quão frenético são os acontecimentos que decorrem durante uma
guerra.
“Nascido
para Matar” é um filme sobre a desumanização do homem diante do horror da
guerra e da estupidez da própria, o egoísmo humano diante das dificuldades; mas
também uma crítica a forma que o exército transformam seus soldados em
assassinos. A alienação dos soldados é tão tamanha, que eles nem questionam o
porquê dessa guerra acontecer e nem porque estão ali, praticamente robôs que
executam tarefas, as quais foram designados. Após a guerra acabar, quem serão
esses soldados? Concerteza, após as transformações que a guerra causou a eles,
não serão as mesmas pessoas que iniciaram aquele treinamento na Ilha Farris.





























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